LUIZ CARLOS MARTINS

LUIZ CARLOS MARTINS
a inconfundível voz do povo

Por Aroldo Murá G. Haygrt

Luiz Carlos Martins (Foto: Diego Singh)
O dono das manhãs no rádio curitibano, com presença continuada na posição há quase trinta anos, não tem raízes paranaenses. Nasceu em S.Paulo, vem de família pobre, avós portugueses, atraídos ao Brasil pela saga do café paulista, naturais  da Ilha da Madeira, e espanhóis (seu “Paco”), pelo lado de Genaro, o pai. Aos seis anos entregava marmitas para clientes da mãe, e dos 11 aos 17 anos aprendia a dominar todos os meandros da indústria de calçados, trabalhando na fábrica Rassum, hoje Kiut, em Birigui, cidade paulista onde se criou, tendo nascido na vizinha Bilac.

Luiz Carlos Martins, 65 anos, confirma aquele adágio – “tendência não é destino”. Fugiu de um cenário de dificuldades e barreiras sociais para tornar-se, a custa de esforço pessoal, perspicácia, criatividade e uma voz inconfundível,no comunicador radiofônico  de marcas definitivas. Uma delas, hoje imitada Brasil a fora, é o bordão “um beijo no seu coração”.

A família nuclear, a influência da  mãe,  Deolinda,  e da mestra (“mater et magistra”)  Igreja, e um amplo esforço para obter educação universitária, são os responsáveis mais imediatos – diz o radialista e deputado estadual – por realidades como as que ele representa hoje no rádio e política do Estado. Na sua Rádio Banda-B, AM, de Curitiba, a mais ouvida Região Metropolitana da Capital, chega a ter 80 mil/ouvintes por minuto, no horário de 8 às 9 horas.

Projeções técnicas indicam, em certas situações, 300 mil ouvintes.  É um impressionante auditório cativo e em crescimento. Frutos que só diferenciados profissionais podem colher.

A voz de Luiz Carlos é a do conselheiro, a do amigo, o ponto de referência na metrópole em que homens e mulheres, muitos deles sem identidade, reclamam laços de fraternidade e compreensão. Pedem vozes solidárias que os escutem.

NAS ONDAS DO RÁDIO

Daria um Romance? A vida de Luiz Carlos Martins – é ele mesmo quem o afirma – é “muito realismo”, embora com concessões à demorada reflexão e  a momentos  como o tempo que devota à oração do Pai Nosso, no seu programa, ou à peregrinação anual ao Santuário de N.S.Aparecida.

Santuário de N.S.Aparecida, peregrinação anual
É vida também sinalizada por  um certo pragmatismo empresarial para levar adiante o  projeto que só na sua Rádio Banda B – “a rádio do coração” – significa hoje emprego para 70 pessoas, com destaque para a sólida equipe esportiva, que lhe dá audiência primeira em futebol.

E o senhor das manhãs curitibanas recorda  que aos 10 anos de idade foi “encantado pelo rádio”.  Foi assim:  como  na casa de bairro periférico de Birigui  daqueles anos 50s – sem água encanada e sem luz elétrica -, o  aparelho de rádio era apenas sonho, tornou-se “rádio-vizinho”. Escutava o rádio movido à bateria que uma vizinha ligava aos domingos. Foi assim que conheceu o Clube do Gurí, de Cícero Alves.

Depois, no auditório da Rádio Clube de Birigui, na primeira fila, iria sorver sofregamente aqueles momentos fantásticos do programa de cantorias infantis e testes de vozes. Só não se apresentava em público porque a mãe não podia saber de sua aventura, sonho radiofônico proibido em sua casa. Mesmo assim, examinado fora do ar por Cícero, foi considerado “muito bom”.

No rádio começou mesmo aos 17 anos, dando a “hora certa” na Rádio Clube de Birigui. Foi o ponto de partida para o programa “Suave é a noite”, em que  apresentaria os românticos sucessos da época, como Moacir Franco, Lucho Gatija, Pepino de Capri. LPs selecionadíssimos, tocando  as preferências musicais  daqueles dias.

Acumulava tarefas para levar dinheiro para casa: fazia rádio, fabricava calçados, estudava no Instituto Noroeste (segundo grau) e ainda tinha tempo para cumprir o Tiro de Guerra. Aos sábados à noite e nos domingos, fazia “bicos” como garção num clube social da cidade. Vontade de mudar o “destino” não lhe faltava.

HOJE, 30 ANOS

O Programa Luiz Carlos Martins, em diversas versões, está há quase trinta anos no ar em Curitiba.  É um desfilar de pleitos materiais, espirituais e psicológicos, de dores e alegrias, que o timbre de voz de Luiz acolhe com largueza, dando sugestões/soluções prudentes.

Voz que tem os tons do povo, na forma direta como chega ao “Xis” das questões. Mas que soa suave, um som inconfundível, dosado pela atenção que sugere ser cada radio-ouvinte o destinatário exclusivo de suas palavras.

Luiz é boa amostra daquele tipo de liderança que sociólogos vão identificando nas cidades grandes brasileiras: os radialistas, os comunicadores radiofônicos – e seus colegas de televisão – tendem a se impor no respeito das populações.  Isto porque muitas vezes são a última instância de reclamações e desabafos de anônimos, homens e mulheres, muitos deles deserdados, isolados nas metrópoles e cidades médias. Gente que, em grande parte, perdeu laços de solidariedade e pontos de referências familiares, religiosos e de vizinhanças como aqueles cultivados nos pequenos centros e no campo. Gente que está em busca de reconstruir identidade, às vezes, até de redefinição biográfica.

Tipos humanos como Luiz Carlos Martins estão, pois, para o morador das cidades verticais como os médicos, os religiosos, os professores estavam para o homem do interior até anos atrás. São porto seguro. Têm créditos. E votos nas urnas, quase sempre.

ESCOLA DE LÍDERES

Primeiro foi a mãe, dona Deolinda, 83 anos, a insistir que Luiz e os quatro irmãos deveriam alargar horizontes, estudar, sobretudo. Mas há uma sigla indissociável da grande guinada do menino pobre de bairro periférico: TLC (Treinamento de Liderança Cristã).

Luiz conheceu o TLC aos 21 anos, em Jacarezinho, onde havia aportado, depois de andanças em busca de afirmação profissional por rádios de Marília, Londrina e, até, Excelsior de S.Paulo (onde chegou a trabalhar por seis meses).

Na formatura na faculdade de Educação Física, em Jacarezinho
O TLC, fundado em Campinas pelo jesuíta norte-americano padre Harold Rahmm, foi movimento religioso e escola para expressar liderança entre jovens em busca de afirmações espirituais e, ao mesmo tempo, de ser “sal da terra e luz do mundo”.

Lá conheceu Maria Aparecida Martins, ela então com 15 anos, ele com 21, com quem se casaria e que é seu melhor “alter ego”. Discreta, uma mescla de mulher de origem italiana com os tiques mineiros legítimos (lado paterno), Maria tinha família tradicional, conservadora, bem estabelecida na cidade. Só se casariam depois de seis anos de namoro.

 

Maria, Mariana e Caio, com Luiz, anos 1990

O grupo do TLC, então com grande influência no País, estimularia outras inserções sociais de Luiz Carlos: em Jacarezinho foi alfabetizador do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), educador de engraxates e meninos de rua, em programas da Unicef, ao mesmo tempo em que fazia rádio. Primeiro, passou poucos meses nas Emissoras Coligadas, depois foi para a Rádio Educadora de Jacarezinho, propriedade da Cúria Metropolitana. “Manhã Total” foi o primeiro programa de comando e permanência amplos de Luiz, numa emissora de rádio.

Estimulado pelo TLC – mesmo que indiretamente – acabou concorrendo a vice-prefeito na chapa do candidato Zezinho do Trânsito. Perde as eleições. Ganha, aos 28 anos, o caminho de Curitiba, depois de alguns meses como Fiscal da Secretaria de Estado da Fazenda, para o que não tinha aptidão, embora aprovado em concurso.

A RECEITA DE GERMANO

Quando chegou a Curitiba, em 1978, Luiz Carlos Martins já vinha com toda a aquela bagagem de Jacarezinho e Birigüi.  A ela acrescentaria algumas “fórmulas infalíveis” apresentadas por Germano Coelho, uma dessas pérolas de raro valor encontradas em rádios do interior. Pois fôra com ele, diretor radiofônico, durante poucas semanas na Rádio Dirceu, de Marília, que Luiz havia despertado alguns talentos adormecidos. Coelho insistia que ele fizesse um rádio alegre, emotivo, dinâmico. E assim fez, nascendo, daí, o bordão “oi, oi, gente querida”. Uma fórmula de que jamais se desligaria. Uma escola de rádio se inaugurava, a partida estava dada…

“Aviar” a receita de Germano foi parte de um amplo saber ouvir, em que, em Curitiba, interferiram outros amigos: “Carneiro Neto, diretor da Rádio Clube Paranaense, que me deu o primeiro espaço radiofônico em Curitiba, e companheiros como Reinaldo Bessa, Aroldo Murá G. Haygert estão naquela relação inicial também”, faz questão de registrar Luiz Carlos.

“Gratidão vem de casa”, sublinha Luiz, enquanto percorre, com olhar parecendo perdido no tempo, momentos dos primeiros dias em Curitiba. Recorda obras suas, como o CD com cânticos e poemas, feito pela COMEP, das Paulinas; o livro “Agora e Sempre”, do começo dos 80s, com mensagens de otimismo e fé, com direito a filas longas, imensas, na porta da livraria, então na Dr. Muricí, para a tarde de autógrafos; a primeira eleição popular vencida, em 1988, quando se tornou vereador em Curitiba, com 14 mil votos, o mais votado da Capital, e pelo PMDB “do meu amigo Maurício Fruet”, levado à sigla por Fábio Campana.

Em 1988, lançando o livro Agora e Sempre, na Livraria das Paulinas, ouve saudação de Dom Albano Cavalin, hoje arcebispo de Londrina
O “relicário” de gratidões é minuciosamente aberto, mas nominando “apenas os mais próximos”.
Paulo Alberti, dentre os radialistas, foi talvez a primeira presença, amigo inseparável; Luiz acha que chegou onde chegou porque  teve e tem apoio de amigos/companheiros de trabalho que o seguem fidelíssimamente, a maioria desde desde os primeiros dias curitibanos: Edmar Colpani, Rosalmo Vargas, Doraci David, Jane Marie Uhlik, Nani, Reginaldo Pierkaski, Alvino Guilherme. Sem falar em Maria, e a também radialista e jornalista  Mariana,  e o advogado Caio, seus filhos e de Maria. Caio trabalha com Michel Micheleto.

Michel, primo de Maria, é hoje o executor dos grandes lances da rádio e das “bolsas, duas pequenas empresas da família, voltadas para a venda de produtos ortodônticos, que ajudam a garantir o projeto rádio, com independência. Especialmente de governos.
Dos primeiros dias na política, e por muito tempo, Érico Mórbis foi companheiro presente. Uma amizade de sólidas entre-ajudas.

RETRATO DO PARANÁ

Para Luiz, a Assembléia Legislativa, em que está desde 1990, “é um retrato do Paraná”, variado, rico, multiforme, “onde, como na política em geral, não há santos nem demônios”. É uma casa de homens e mulheres que, opinam, compõem uma fauna especial, movida fundamentalmente pelo “móbile” político, com ampla inserção cultural e sem barreiras raciais, religiosas ou sociais. “Faço parte, com honra, desse mix de gente voltada para a causa pública. Não somos únicos, mas somos valiosos”, argumenta.

O primeiro grande tranco que a política lhe deu foi na eleição de prefeito de 1985, quando concorriam Lerner e Requião. Foi tirado do ar porque, na rádio, mandava “um beijo no seu coração”, alusão ao slogan “coração curitibano” da campanha de Jaime. Requião foi o vitorioso, uma vitória surpreendente.

Outro golpe, mais duro ainda – “é das ostras doentes que nascem as grandes pérolas” – foram as eleições de 1986. Concorreu a deputado estadual pelo inexpressivo PSC, fez 64 mil votos, não conseguiu legenda suficiente. Parte do infortúnio atribui à confusão do eleitor que assinalava na cédula eleitoral o nome do PMDB, como se fosse seu partido, e acabava, por lei, dando os votos equivocados aos peemedebistas. O que faz concluir que a votação foi maior do que os 64 mil sufrágios.

Eleito em 88 vereador, na Câmara só ficou dois anos. E em 90 estava na Assembléia, pela legenda do PMDB; em 1994, reelege-se, pelo PDT; em 98, volta pelo PFL; em 2002 fica com o “nanico” PSL. Agora, como que num grande retorno, volta ao PDT “até por partilhar de posições sociais claras defendidas pelo partido”.

Costuma dizer que há homens públicos insuperáveis, com lugar na História do Paraná. Um deles, Ney Braga, “preparou-nos o caminho da modernidade”; Saul Raiz, “fundamental na estruturação da cidade, com obras definitivas e imprescindíveis, como a canalização de rios e o exorcismo das enchentes”; Jaime Lerner “foi o transformador. Precisa dizer mais?”.

Entrevistando Ney Braga, em 1981: “foi o modernizador do Paraná”
De Aníbal Khoury – em cujo mandato de presidente Luiz foi primeiro secretário da Assembléia, de 1995 a 1999 -, uma certeza: “Foi um aglutinador na política paranaense, especialista em reunir pessoas e idéias”.

 

 

Como primeiro secretário da Assembléia Legislativa do Paraná, com Fany Lerner, Miltinho Puppio,
Hermas Brandão e Aníbal Khury, em 1988
O PRESENTE E O FUTURO

De Requião é leal adversário. Do governador recebeu meses atrás telefonema, congratulando-se com ele por projeto seu, transformado em lei, dispondo sobre  a obrigatoriedade de avisos orais e gráficos indicando a existência de equipamentos de seguranças dentro dos ônibus, para facilitar fugas em casos de acidentes.

– O tempo é de sinceridade, o eleitor não dará chances a quem não seja sincero, àquele que continuar fazendo promessas vãs – eis como Luiz vê a próxima cena eleitoral.

Liderança em 1990: capa de revista nacional
Ele, por sua vez, promete continuar o mesmo, agora instalado nos amplos estúdios da Banda B, nas Mercês, de onde faz mais do que comandar as manhãs curitibanas. Ali ele está ajudando a vivenciar algumas novas experiências do amplo laboratório social que o Brasil urbanizado começou a resumir a partir do final dos anos 60s.

Sendo uma boa simbiose de homem do interior com o cidadão da cidade vertical, vai mostrando uma acuidade peculiar em conjugar a objetiva comunicação numa sociedade em transição. Para isso, dosa religiosidade popular, um pouco de horóscopo, gossips das telenovelas e o acompanhar crítico de um noticiário local e nacional, político, sobretudo, e do qual ele, o menino de Birigui, é palco e platéia, ao mesmo tempo.