As 10 frases que os cegos mais escutam nas ruas


Imagina você depender de uma pessoa que você nunca viu na vida para atravessar a rua? É, bem-vindo ao nosso mundo! Em vez de amaldiçoar esse destino, aproveito esses momentos para trocar ideia com aquelas pessoas que se dispuseram a ajudar. Desses e de outros contatos cotidianos que separei as frases abaixo.

E você que é cego, tem alguma frase que você sempre escuta e que não está aqui?

1: “Desde quando você é assim?”, como se  dizer a palavra cego fosse alguma ofensa.

2: “Como que a sua mãe te deixa andar sozinho?” Essa talvez seja a mais clássica. “Vai ver que é porque ela tem algo mais que fazer do que me acompanhar pra cima e pra baixo”, é o que dá vontade de responder, mas eu tenho que ser educado e explicar que os cegos também têm sua vida, sua rotina, seu trabalho e seus compromissos. Quando a pessoa mesmo assim insiste e pergunta se não tenho um primo ou um irmão para andar comigo, respiro fundo e sou obrigado a fazer uso de um argumento esdrúxulo: “Eles bem que tentaram me acompanhar, mas quando eu arrumei uma namorada e queria ir para o motel, eu não ia pedir para que alguém me acompanhasse até a sala de espera”.

3: “Por que você está andando tão rápido?” como se cego nunca tivesse nenhum compromisso.

4: “Cego não enxerga com os olhos, mas vê com o coração” — Que nada! Nem olho e nem coração.. A gente simplesmente não enxerga nada mesmo. No máximo, vejo o mundo com os dedos.

5: “Deus tira uma coisa mas dá outra” (em referência a termos os demais sentidos aguçados). Na verdade, desenvolver os outros sentidos é apenas uma forma que nosso corpo tem de se adaptar a esse mundo tão visual que vocês criaram.

6: “Cegos são muito bons em música” — àqueles que acreditam nisso, convido a assistirem a uma performance musical deste que vos escreve, com direito à interpretação de minha composição de infância chamada Bariel. Seja no piano, guitarra, violão ou até na voz… Eu sou péssimo, contrario completamente o legado de Ray Charles, Stevie Wonder e Andrea Bocelli. Ou sou a exceção que confirma a regra, vai saber…

7: “Tadinho, ele é cego!” (dito geralmente em tom baixo quase sussurrado): — Sinceramente, eu tenho pena mesmo, mas é de quem diz uma coisa dessas. E não apenas porque a pessoa acha que não estamos escutando, mas porque essa frase esconde um preconceito que ela própria nem percebe. Infelizmente, ainda tem muita gente que julga a capacidade dos outros pela aparência externa ou pela deficiência. Quando estamos diante de alguém, devemos ver suas capacidades e não suas debilidades… E isso não muda nem quando elas são mais aparentes (como no caso das pessoas com deficiência). O fato é que, ainda que estejamos no século XXI e o homem já tenha chegado à Lua e  já esteja mapeando o Genoma humano, há ainda muita gente que pensa que só porque não enxergamos somos incapacitados ou inferiores. Uma pena, realmente!

8: “O que ele vai beber?”, clássico quando estamos em restaurantes e o garçom cisma de se dirigir à pessoa que está comigo. Tudo bem que eu entendo que vocês precisam do contato visual para saber que estão sendo escutados (imagina se eu fosse assim também), mas basta perguntar o meu nome ou tocar no meu braço e a conversa começa. Seja com for, por favor, perguntem pra mim!

9: “Se eu fosse assim (cego), eu não ia conseguir viver” – É, mas não tem outra escolha. É viver ou viver. E como cego também paga conta de luz, é melhor não ficar parado. Não é porque as contas não chegam em Braille que você, o cego, não tem de pagá-las.

10: “Sua vida deve ser muito triste” – Bem, essa eu deixo para vocês, leitores do Histórias de Cego, responderem.

 

(Fonte: site Histórias de cego)

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